terça-feira, 29 de novembro de 2011

JORGEPÔ:ARTE INDÍGENA E A DIVERSIDADE CULTURAL : ÍNDIOS E AFRODESCENDENTES.

“O Artista Plástico modela, cria, funde o seu, o nosso universo por intermédio de formas e cores. As formas são as mais variadas; as cores, aquelas componentes do arco-íris e mais tantas quantas dele resultantes, que é impossível mensurá-las. Enfim, o Artista Plástico trabalha em consonância com o universo que muitas vezes é o seu mundo exógeno e endógeno. Eis a arte, eis o artista!” (Antonio Fontes)
 

Jorgepô busca, em sua obra, retratar o cotidiano de uma cultura esquecida, ele busca, nos olhares, a profundidade de perguntas quase sempre sem respostas ao longo do tempo. Os indígenas deixam de ser objetos da história, para serem, na verdade, a história. O indígena não quer ser inventado ou recriado, mas sim ser ele próprio na sua essência e na sua cultura. São quase trinta anos de trabalho voltado para a cultura do índio, mas retratá-lo não é o suficiente; o olhar que busca a resposta é a expressão mais forte para que a cultura e os costumes do povo indígena sejam respeitados e preservados como o maior patrimônio material e imaterial do Brasil. Jorgepô estudou Artes Plásticas, inicialmente, na Faculdade de Belas Artes em São Paulo (1978). No mesmo ano se mudou para Salvador, ingressando na Escola de Belas Artes da UFBA., onde se formou em 1984. Participou de vários congressos no período estudantil e lecionou por dez anos no Colégio Dínamo como professor de Artes. Em 1986, ingressou no ramo da publicidade e constituiu a empresa denominada Tupiniquins Propaganda. Em seguida, em 1990, fundou o Bloco Tupiniquins, sempre defendendo a causa indígena e usando sempre o refrão: ”deixe o índio ser  índio".
Entre 1978 e 2013, Jorgepô participou de 25 exposições  coletivas, dentre elas: o 36º Salão de Artes Plásticas de  Pernambuco (1982), o happening na Bienal Internacional de  São Paulo (1983), a exposição da Galeria Canizares (1984), a exposição do Recôncavo em Cachoeira, a exposição em Juazeiro,no  Centro de Cultura de Alagoinhas, no MAM em Salvador, entre outras. Realizou também cinco exposições individuais, sendo a última no Trapiche Hotel, intitulada “Índios", onde apresentou obras digitalizadas dos olhares indígenas.
Além das Artes Plásticas, Jorgepô teve uma participação na literatura, tendo três livros publicados: O Movimento dos Corpos, juntamente com Joviniano Borges da Cunha e Eduardo Thomé (São Paulo, 1978 ed. Esgotada), Amores Mutantes, com Antonio Barreto (Alagoinhas, 1980 ed. Esgotada) e Sassu, o guerrilheiro do Araguaia (1985, ed. Esgotada), e algumas coletâneas de poetas baianos.
A arte digitalizada foi uma experiência para um novo trabalho que Jorgepô desenvolve no momento, uma técnica mista de artesanato, impressão digital, sublimação, acrílica, resinas, entre outros materiais, buscando expressões do mundo contemporâneo, confundindo imagens e formas que causarão um questionamento sobre a cultura popular e a acadêmica. A expressão artística e valorização do popular causando um impacto social e ambiental, indo além das culturas indígenas e afro-descendentes questionando a nossa origem num todo, por todas as etnias que compõem a nossa atual.
O traço do artista não é tão simples de descrever, por não obedecer a regras ou títulos. O artista cria a partir do que surge dentro de si pra o seu mundo externo, por isso a denominação endógena e exógena. A técnica muda com a necessidade de ser livre para a expressão, a temática é o produto final da obra para o artista e a continuidade na mesma nos olhos de quem vê ou critica. O sentimento de gostar ou simplesmente repudiar. A expressão na frente da técnica, do suporte e da temática e, por isso, o artista Jorgepô leva consigo para a eternidade a expressão de outro artista, Bené Fontelles: "ANTES ARTE, DO QUE TARDE".
Qual a avaliação que faz das atividades dos artistas plásticos na cidade?
Alagoinhas é uma terra rica em sua cultura, porém fica muito a desejar por falta de incentivo comercial e político. Diante desse quadro, artistas do porte de Josilton Tonm, Luiz Ramos e Élon Brasil (que teve uma pequena passagem por Alagoinhas)l, buscaram outros caminhos para difundirem seus conhecimentos. Outros abandonaram a profissão, como Messias, atualmente moto-taxi. Quem resistiu ao descaso foi LithoSilva, Márcia Almeida, Floriano, e Anthonio Lins, hoje uma página sobrevivente na História da Arte de Alagoinhas. Outros, também muito talentosos, infelizmente ainda estão no anonimato por falta de espaço e incentivo, podendo citar Daniel Barbosa e Edson Dias.
Em sua opinião, o que faz o "nome“ de um artista plástico?
A obra e a trajetória do artista são responsáveis por seu nome, a expressão tem que ir além dos pincéis, telas e demais ferramentas de trabalho. Ela tem que ter o conteúdo social mesmo que seja bonito ou feio, compreensível ou incompreensível. O reconhecimento da sociedade é a participação da mesma nos salões, galerias ou outros espaços culturais, mesmo que não seja para adquirir, mas para opinar, dar créditos ao artista. É preciso deixar o ”rebolation” de lado e perceber a importância do "Trenzinho Caipira de Villa-Lobos". Trocar o passageiro pelo eterno, porque assim é a arte desde o principio, assim nós artistas, através de nossa obra, poderemos ser lembrados, como nunca foram esquecidos: Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafaello, Picasso, Dali, Rembrandt, Kandinski, Tarsila, Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, entre tantos outros.
Alagoinhas possui uma ldentidade Cultural?
Acredito-me, que falta esta identidade. O que há em Alagoinhas é a resistência de alguns artistas e da maior amante de todos eles, a Professora lraci Gama, que traça uma luta árdua para que possamos ter um lugar ao sol. Mas, com iniciativas da FIGAM e do atual governo do Prefeito Paulo Cezar, as coisas começaram a surgir, como podemos citar a inclusão de Alagoinhas como uma das cidades baianas consideradas Patrimônio Cultural da Bahia e do Brasil. Portanto, eu vejo muita resistência tanto de Iraci, como de LithoSilva e o abraço do governo municipal, para que isso se torne realmente o que chamamos de identidade cultural de Alagoinhas.

"Eu, como artista que depois de algum tempo fora de cena estou retornando não somente para fazer da arte um objeto de consumo, mas torná-la um veiculo de aproximação entre a arte e o social, fico eternamente grato pela iniciativa da ACIA em dar um primeiro grande passo para mostrar a sociedade e ao meio empresarial que Alagoinhas é rica no que se diz cultura. E que possamos realmente sensibilizar essa comunidade de que a cultura é a identidade de um povo, seja ela material ou imaterial. A diversidade cultural é a expressão maior de um povo. Portanto, viva a Cultura."



Fonte: Acia Divulga  - Midian Bispo







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